Meio Ambiente

Conhecer para preservar

Monitoramento de cetáceos inédito no Brasil abrange área que vai de Santa Catarina ao Rio Grande do Norte

Dois dias depois da primeira tentativa, o piloto recebeu a autorização da torre para acionamento dos motores do avião que decolaria poucos minutos depois, da pista do Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis. Diferente dos voos comuns, com dezenas de passageiros apressados para a aterrisagem no destino, esse seria um voo de avistagem de cetáceos. As quatro pessoas acomodadas nos assentos da aeronave também fugiam do senso comum e deixaram para trás o estereótipo do passageiro que viaja pensando nos problemas da origem ou do destino da viagem. A maior preocupação dos observadores no voo seria olhar atentamente pelas janelas e tentar registrar a presença de baleias e golfinhos pela costa.

Divididos em duas etapas, os voos fazem parte do maior trabalho de monitoramento de cetáceos já realizado no país em extensão de área. A viagem percorreu uma área total de 272 km2, equivalente ao somatório dos territórios dos estados de Santa Catarina e Paraná.

Uma condicionante para a exploração e produção no pré-sal

A primeira etapa é parte do Projeto de Monitoramento de Cetáceos da Bacia de Santos (PMC-BS), uma condicionante necessária para a liberação de nossas atividades de exploração e produção do pré-sal da Bacia de Santos. Nem todos sabem, mas executar um projeto de extração de petróleo não se resume a posicionar uma sonda e produzir o óleo e o gás acumulados numa rocha reservatório abaixo do solo. Qualquer projeto de exploração e produção precisa atender a uma série de pré-requisitos definidos por órgãos ambientais, que incluem ações complementares com o objetivo de mitigar impactos.

O PMC–BS, executado pela consultoria Socioambiental, teve por objetivo conhecer a distribuição e a ecologia dos cetáceos (baleias e golfinhos) para avaliar possíveis impactos das atividades humanas nas diferentes espécies desses animais na Bacia de Santos. O primeiro ciclo do projeto, em execução desde 2015, vai até 2021 e irá colher dados para estabelecer diretrizes para o monitoramento dos cetáceos no longo prazo (durante toda a exploração de petróleo e gás do pré-sal).

A bióloga Carolina Bezamat, da Socioambiental, participou dos voos e contou um pouco sobre a experiência.

Como era esperado para uma campanha de inverno, vimos várias baleias, principalmente baleias-jubarte que vêm para o Brasil nessa época do ano para reproduzir. Também vimos um grupo bem grande com cerca de 300 golfinhos. Quando passamos por eles, não sabíamos que eram tantos, mas suspeitamos que era um grupo grande pois os observadores de ambos os bordos viram. Ficamos felizes.

Os pesquisadores também avistaram uma toninha, a espécie de golfinho mais ameaçada em todo o litoral brasileiro.

Para Fernando Gonçalves de Almeida, coordenador de monitoramento ambiental da Petrobras, a adoção de uma abordagem de monitoramento com múltiplos métodos de coleta de dados projeta o PMC-BS como um dos maiores e mais importantes projetos de monitoramento de cetáceos já realizados no Brasil.

O legado que o desenvolvimento do projeto deixará para o conhecimento técnico e científico deste grupo vai muito além do atendimento a requisitos legais. Ele é hoje o mais completo e longevo projeto de monitoramento de cetáceos desenvolvidos no Brasil.

A segunda etapa dos voos de monitoramento, que foi desde Cabo Frio – RJ até a divisa entre os estados do Rio Grande do Norte e Ceará, não foi uma condicionante legal. A pesquisa conduzida pelo Projeto Baleia Jubarte, além de permitir estimar o tamanho da população, ajuda a determinar a distribuição das baleias em nosso litoral e identifica áreas de maior concentração. O trabalho também permite entender quais as potenciais sobreposições com atividades humanas nessas áreas e trabalhar de forma preventiva para compatibilizar usos e mitigar impactos.

Sobre o Projeto Baleia-Jubarte

Atuando há 30 anos na pesquisa e conservação das baleias-jubarte e do ambiente marinho do Brasil, o projeto é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e integra a Rede Biomar. Os projetos da rede (Albatroz, Coral Vivo, Golfinho Rotador, Jubarte e Tamar) atuam de modo integrado na conservação da biodiversidade marinha do Brasil.

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