Meio Ambiente

Na natureza selvagem: a história dos peixes-bois marinhos Vitória e Parajuru

Os animais foram reintegrados à natureza após sete meses de adaptação pelo projeto parceiro Viva o Peixe-boi Marinho

Era a madrugada do dia 1º de janeiro de 2015 quando foi acionada a equipe do Projeto Viva o Peixe-boi Marinho, patrocinada por meio do Petrobras Socioambiental. A missão, urgente, era resgatar um filhote de peixe-boi marinho que havia encalhado vivo na Praia do Oiteiro, na APA da Barra do Rio Mamanguape (PB). Quem encontrou o animal, uma fêmea, foram dois pescadores da região, seu Canário e seu Passinho. Foram eles que batizaram a filhote com o nome de Vitória, já que, resgatada em bom estado de saúde, vencia uma batalha pela sobrevivência. Hoje, aos quatro anos, Vitória é uma fêmea saudável, com 404 kg e 2,70 m e vive na mesma APA da Barra do Rio Mamanguape onde foi encontrada e, após sete meses de readaptação, pôde ser reintroduzida na natureza.

Após sete meses em um ambiente de transição Vitória foi reintegrada junto com Parajuru, um macho de 6 anos de idade, 335 kg e 2,51 m. Parajuru foi encontrado ainda filhote encalhado numa na praia de Parajuru, Beberibe (CE), em janeiro de 2013 e acompanhou Vitória em todo o processo de readaptação ao ambiente natural. Resgatado pela equipe da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) com 32,5 kg e 126 cm, foi atendido e, após oito dias, transferido para o Cepene/ICMBio, na Ilha de Itamaracá (PE), para onde Vitória também foi transferida após o resgate.

Quando encontrada, Vitória foi atendida pelas equipes do Viva o Peixe-Boi Marinho e da APA da Barra  Rio Mamanguape. Ela ainda apresentava resquícios do cordão umbilical, pesava 39 kg e media 131 cm. Na ocasião, como os técnicos não localizaram a mãe de Vitória, não foi possível reintroduzir o filhote. Ela foi, então, encaminhada para a sede do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene/ICMBio), onde recebeu o tratamento adequado até ser transferida com Parajuru para o local de readaptação, há sete meses.

Livres na natureza

Vitória e Parajuru foram os primeiros animais a inaugurar o espaço direcionado a peixes-bois marinhos em fase de readaptação ou que precisem de cuidados especiais da APA do Rio Mamanguape. Após o período de adaptação, em um cercado de 4.131 m² em um estuário no manguezal, no dia 24 de novembro os portões foram abertos e os animais podem finalmente se reintegrar totalmente aos ambientes naturais. Os animais foram acompanhados em todo esse tempo pelas equipes do Viva o Peixe-Boi Marinho e da APA. Exames clínicos realizados no início de novembro, mostraram que eles estavam saudáveis e aptos para serem soltos e voltarem a viver livres na natureza.

Chegada de Vitória ao local de readaptação da APA da Barra do Rio Mamanguape (PB)

Durante o período de transição, Vitória e Parajuru puderam experimentar em segurança tudo o que a natureza oferece. “Eles aprenderam a conviver com o mangue e a variação das marés, correntes marítimas e mudanças de salinidade e temperatura da água, além de interagiram com outros organismos aquáticos e experimentaram novos alimentos, como as algas-marinhas da região”, conta o médico veterinário João Carlos Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Com a soltura, os animais foram direcionados para a parte externa do cercado, onde se juntam aos outros peixes-bois, reintroduzidos e nativos, monitorados na região. Vitória e Parajuru ganharam equipamentos que possibilitam seu monitoramento por satélite pelos técnicos do projeto e da APA do Rio Mamanguape.  A localidade, uma das principais áreas de ocorrência de peixes-bois marinhos no Brasil, é ideal para a reintrodução. A espécie encontra no local tudo de que precisa para viver bem: um estuário e ambiente marinho com águas limpas, calmas e protegidas, além de alimento – tudo isso em uma área de proteção ambiental.

Cercado do local de readaptação, no ambiente ideal para peixes-bois marinhos.

Para João Carlos, a soltura dos animais e sua integração a outros de sua espécie na natureza representa o principal objetivo do trabalho de conservação, de modo a assegurar a perpetuação da espécie.

Ter os peixes-bois nestes ambientes e a sociedade convivendo de maneira harmônica com eles nos traz a esperança e a motivação para seguir com os esforços desprendidos em prol da conservação da espécie, destaca João Carlos

A história de Vitória virou filme pelas mãos de jovens de comunidades da APA da Barra do Rio Mamanguape, que participaram da oficina "Documentário na prática", promovida pelo Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho. Assista ao documentário

O projeto

Realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos e patrocinado por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção da espécie no Nordeste do Brasil. A iniciativa conta com a parceria da APA da Barra do Rio Mamanguape e o CEPENE/ICMBio. Atua nas áreas de pesquisa, tecnologia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas.

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