Como a tecnologia social e inovações transforma comunidades
Descubra como pessoas comuns transformam desafios cotidianos em soluções inovadoras por meio da tecnologia social.
Renderização do Laboratório Criativo da Amazônia (LCA), complexo de estruturas geodésicas integradas a painéis solares em meio à floresta amazônica.
Existe ciência nas ruas, nas comunidades e na experiência de quem enfrenta desafios diariamente. É exatamente dessa ciência viva que nasce a tecnologia social, com soluções para problemas cotidianos enfrentados por populações específicas.
A tecnologia social está em todo lugar e nasce quando alguém olha para um problema que ninguém mais estava disposto a resolver e decide agir com o que tem em mãos: conhecimento, experiência vivida e comunidade.
E são nos laboratórios improvisados em bairros periféricos, nos telhados que geram energia renovável ou até em uma linha de produtos de limpeza hipoalergênicos, sustentáveis e derivados de fontes naturais e renováveis, desenvolvido por uma mãe que desejava produtos mais saudáveis para seu filho e para o planeta, que ela é encontrada.
Esse é um tipo de inovação que desafia a lógica de que grandes transformações só surgem em laboratórios de ponta. Pelo contrário, a ciência popular, construída coletivamente, enraizada na realidade de quem sofre na pele os desafios que é, há muito tempo, um motor silencioso de mudança no Brasil.
E é sobre esse poder que vamos conversar a seguir!
O que é tecnologia social e por que ela vai além da inovação tradicional
E afinal, o que é Tecnologia Social? São produtos, serviços ou metodologias desenvolvidas com a participação da comunidade, combinando conhecimento técnico e saber popular para solucionar problemas locais por meio da inclusão e desenvolvimento, com mais foco no impacto social em vez do lucro.
Diferente da inovação disruptiva tradicional, em que especialistas de fora desenvolvem soluções desconectadas da realidade onde serão aplicadas, a tecnologia social coloca o conhecimento coletivo no centro. Quem sabe o que precisa ser resolvido é quem vive o problema. E é exatamente por isso que essas soluções funcionam, pois já nascem dentro da realidade local, do cerne da necessidade.
É assim que as tecnologias sociais não buscam escalar um produto para maximizar lucros. A ideia é escalar o impacto para melhorar vidas, unindo sustentabilidade e economia.
Quando a necessidade abre portas para a criatividade coletiva
O ponto central é simples: pessoas que vivem em territórios marginalizados acumulam um conhecimento profundo sobre aquele lugar. Esse saber, somado a ferramentas científicas básicas, gera inovação sustentável de verdade. E esse movimento tem nome!
Em diferentes partes do mundo, ele é chamado de citizen science, ciência cidadã ou ciência comunitária. Ela e a tecnologia social se conectam diretamente porque ambas utilizam o conhecimento popular e a participação comunitária para resolver problemas reais, transformando cidadãos comuns em agentes de transformação social e científica.
Assim, enquanto a tecnologia social desenvolve soluções replicáveis para problemas básicos, a ciência cidadã gera os dados que provam a eficácia dessas soluções.
Na reportagem “Inovação na periferia: ciência comunitária feita por corpos dissidentes", criada por Wallace Leray, Mauricio Thomaz e Caroline Vale, para o Catraca Livre (SP) e premiada na Seleção Petrobras de Jornalismo, conseguimos entender como isso acontece na prática!
Na matéria, acompanhamos moradores de comunidades brasileiras que desenvolveram soluções originais para saúde, meio ambiente e mobilidade, sem esperar que alguém de fora chegue com a resposta pronta, como o “Periferia Sustentável”. Fundado por Fábio Miranda, é um laboratório comunitário que desenvolve soluções sustentáveis de baixo custo para a comunidade e também faz oficinas com estudantes de escolas públicas. Um dos projetos, o Revolusolar, atua no combate à pobreza energética e na promoção de uma transição energética justa e inclusiva.
Moradores da periferia de SP criam projetos de ciência para resolver problemas diários.
Como diferentes olhares ajudam a construir soluções inovadoras
A tecnologia social parte do princípio de que o diálogo entre o conhecimento científico formal e os saberes tradicionais é indispensável para que a ciência funcione.
Um estudo realizado pela Wageningen University revelou que projetos que envolvem a comunidade como coautora na criação de soluções tecnológicas locais apresentam uma taxa de adoção e sustentabilidade até 70% maior do que iniciativas científicas tradicionais.
Pense em iniciativas de soluções baseadas na natureza aplicadas em contextos urbanos. As mais bem-sucedidas são aquelas que combinam o conhecimento ecológico de especialistas com a memória territorial de moradores mais antigos.
No campo da economia sustentável, esse cruzamento gera modelos de economia circular que surgem da observação direta. O desperdício de um vira insumo de outro.
O território e a experiência coletiva como motores da inovação social
Há oito anos, Paula Galgano, doutora em química, decidiu deixar o ritmo frenético para viver a primeira infância do filho no interior de São Paulo. O que veio a seguir é um exemplo perfeito do que acontece quando o conhecimento técnico encontra a necessidade cotidiana.
Imersa nas tarefas domésticas, Paula começou a perceber o quanto os produtos de limpeza convencionais desperdiçavam embalagem, continham água em excesso e traziam ingredientes corrosivos e desnecessários, que inclusive provocavam alergias na pele sensível de bebês.
Com seu repertório em química, ela começou a desenvolver fórmulas próprias, mais minimalistas, eficientes e seguras para quem usa e para o meio ambiente. As fórmulas limpas e hipoalergênicas desenvolvidas por Paula também são um caso clássico de economia circular e inovação sustentável.
Essa história foi contada pelos jornalistas Matheus Santino, Italo Rufino e Kalinka Maki na reportagem “A doutora em química que ajuda mães nas tarefas domésticas", que faz parte de uma série de 4 matérias chamada "Cientistas diversos criam soluções originais para desafios reais de sustentabilidade urbana", vencedora da Seleção Petrobras de Jornalismo.
Conheça as outras 3 reportagens da série para a revista digital Emerge Mag:
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Uma solução para as enchentes barrada pela falta de financiamento
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A diversidade de ideias e o diálogo entre os diferentes causam inovação real
As soluções criadas por quem conhece os desafios de perto
Esse tipo de impacto raramente aparece nos relatórios de inovação. Mas ele é real, silencioso e cotidiano. As tecnologias sociais se multiplicam porque funcionam em rede pela confiança construída entre pessoas que compartilham os mesmos desafios. É de mãe para mãe, de comunidade para comunidade, de território para território.
A linha de produtos verdes de Paula, os Fab Labs — que criam soluções de baixo custo e ainda envolvem alunos da rede pública para despertar o interesse dos jovens pela ciência — e outras iniciativas, são exemplos de como transformar tecnologia em ferramentas de inclusão social, educação e geração de renda.
💡Leia também como podemos criar uma nova geração de mulheres na ciência.
A inovação popular não compete com a ciência acadêmica. Ela a complementa, a desafia e, muitas vezes, a precede. Criatividade não falta nessas situações, mas geral reconhecimento, acesso e apoio para que essas soluções alcancem quem mais precisa delas, sim.
A tecnologia social nos lembra que inovar é uma questão de olhar com atenção para os problemas ao redor e ter a coragem de construir, coletivamente, novas soluções.
Acreditamos que a inovação também nasce nos territórios, por isso apoiamos programas socioambientais e iniciativas como a Seleção Petrobras de Jornalismo, que dá visibilidade a quem já está construindo soluções reais pelo Brasil. Leia também como proteger e ajudar quem existe em realidades ignoradas.
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